segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Eterno Retorno II

No início do livro "A Insustentável Leveza do Ser", o escritor tcheco Milan Kundera divaga sobre o "eterno retorno". Cita de Nietzsche o pensamento de que "um dia tudo vai se repetir tal como vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente".

Kundera afirma que no eterno retorno a vida se repete de forma sempre igual. Os anos sangrentos voltariam. Robespierre, na Revolução Francesa, ressurgiria eternamente cortando a cabeça dos franceses. No eterno retorno, cada gesto carrega um peso infinito.

À ideia de Nietzsche, o escritor contrapõe a leveza da vida que "vai desaparecer de uma vez por todas, que não mais voltará, que é semelhante a uma sombra". Como condenar o que é efêmero?, pergunta. "Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, nossas vidas, sobre esse pano de fundo, podem aparecer em toda a sua esplêndida leveza".

Admiro muito as obras de Kundera, principalmente "A Brincadeira" e "Os Testamentos Traídos", mas discordo dessa interpretação. O eterno retorno não é um peso. Pelo contrário: saber que a violência se repete atenua a violência, alivia seu caráter fatídico. Saber que a injustiça é cíclica permite que a relativizemos. Quanto às alegrias e felicidades, se se repetem, tanto melhor.

Aceitar um universo temporal em círculo, ou melhor, espiralado, faz com que admitamos nossos limites e, ao mesmo tempo, perdoemo-nos pelos erros inevitáveis, sejam pessoais ou da humanidade. O eterno retorno não é uma condenação, é uma sutil liberdade.

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